Relatos

Minha relação com o Sujeitos sempre foi marcada pelos afetos. Isso se deve não somente ao fato de ter uma liberdade em manifestar todos os meus sentimentos com relação ao percurso no projeto, mas porque sempre tive uma relação de amizade com os professores orientadores, André e Karina. Sempre me senti muito à vontade nos encontros para esclarecer quaisquer rusgas entre colegas bolsistas e/ou agentes das comunidades em que atuávamos. Para além disso, sempre estive intimamente ligado aos participantes das oficinas que ofertamos no projeto, não apenas ministrando as atividades, mas me inteirando do cotidiano, vida familiar, estudantil e social.
Nesse processo, me encantei com a descoberta de que o bairro Cabanas é, praticamente, outra cidade, e, que possui demandas específicas. E, talvez por causa do seu distanciamento do centro histórico, o faz ser um bairro em que se perceba mais nitidamente a ausência do poder público. Entretanto, ao atuar junto à essa parcela da comunidade marianense, me reconectei com minha origem: a periferia. Durante o projeto, morava em alojamento estudantil e acabava sempre circulando por espaços acadêmicos e regiões onde havia concentração de estudantes da UFOP. Isso mudou radicalmente quando comecei a participar do projeto de extensão. Pude, a partir de então, notar nas vivências da periferia do Cabanas – que se assemelha como àquela em que um dia morei lá em BH – histórias, sujeitos e contrastes que só enriqueciam a prática jornalística. E não só isso: fizeram parte de um processo de autoconhecimento.
Acho que foi nesse encontro cotidiano com “o outro” periférico que percebi que esse “outro” era muito mais que um sujeito do projeto. Esse outro também era eu, ele era um dos meus pares, ou seja: negro, pobre, periférico, sonhador, otimista… Nesse momento, me assumi como negro. Até então sempre circulava por ambientes majoritariamente formados por pessoas brancas e classe média. Quando encontrava um dos meus pares, o que era raro, uma amizade se estabelecia. Na graduação, a maior parte das relações que estabeleci com colegas foi pelo interesse comum do assunto “diversidade sexual e de gênero”. Nisso, as conexões se davam pela afinidade nessa questão específica. Entretanto, notadamente percebia que, enquanto para a maioria desses o desafio era se assumir LGBT, para mim, a questão era também o fato de me assumir LGBT e negro. Isso se agravava pelo fato de perceber que as condições financeiras nunca me permitiam pensar apenas na problemática do se assumir, mas também em como sobreviver e me manter na universidade.
Retomo, então, às vivências dos sujeitos afetados pelo projeto em que, muitas vezes, se viam impossibilitados de largarem o trabalho para se dedicarem unicamente aos estudos. Por mais que quisessem um dia serem jornalistas, engenheiros, médicos, a condição social deles e o racismo institucional que reverbera mesmo nas salas de aulas dos cursos de humanas, os impediam de permanecerem sonhadores. Muitos desses meus pares eram sonhadores e otimistas, porém, o tempo todo eram interpelados pela dura realidade do portão para fora. No dia seguinte teriam que se submeter aos subempregos de Mariana, pegar ônibus lotado com destino ao centro histórico (Casa Grande), trabalhar duramente o dia todo, para, no fim do dia, poderem sonhar em ser sujeitos de suas histórias, como o próprio nome do Programa diz.
Acredito que, por mais tímido que tenha sido meu papel nesse projeto, muitos ali se permitiram continuar otimistas pelo menos por um pouco mais de tempo. As oficinas que fizemos sempre tinham um papel motivacional. Nunca terminávamos no tempo ideal e já cansei de ficar durante o intervalo conversando com alguns interessados em ingressar numa faculdade. Ouvia, atentamente, os seus projetos de vida e as suas dificuldades. Infelizmente, sabia que a rotina deles e a necessidade de levar alimento à mesa, pagar contas, sustentar filhos, irmãos, avós, era um obstáculo enorme para concretização de um sonho. A cada encontro que tínhamos pela manhã, por mais pequeno que fosse o grupo, eu me alegrava com o fato de saber que alguns ali abriram mão de algum compromisso muito mais crucial do que uma oficina de fotografia. Enfim, acho que a experiência no Sujeitos mexeu comigo de tal forma que me percebi privilegiado por ter acesso ao ensino público superior e, ao mesmo tempo, indignado por ter mantido tantos sujeitos que, assim como eu, sempre foram invisibilizados. Me percebi nesse “outro”, que há tempos já tinha sido eu, mas que, com a vivência cotidiana numa universidade branca e classe média, tinha me feito desconectar, em algum grau, da minha origem. Acho que o Sujeitos me propiciou isso, o que é muito.
Aleone Higidio, bolsista 2015

 Falar do Sujeitos de suas histórias é falar de afeto. Um afeto que pude experimentar durante um ano como bolsista. Foi um momento muito importante da minha graduação, pois, além de ter tido a oportunidade de colocar em prática alguns conceitos que havia aprendido ao longo do curso, também pude compartilhar novas histórias e ainda descobrir uma parte de Mariana que não conhecia. Tudo isso, fazendo aquilo que eu mais gosto: escutando as pessoas. E, a partir desse projeto, passei a enxergar novas possibilidades de narrativas e uma nova forma de fazer jornalismo – mais humano e plural. Espero que esse projeto continue afetando alunos e participantes, assim como aconteceu comigo e com os moradores do bairro São Gonçalo com quem tive maior contato durante as incursões e oficinas. Gratidão pelo projeto e por todos que deixaram (deixam) um pouquinho de afeto nele!
Andrezza Lima, bolsista 2015

Ensinar a fotografar é ensinar a olhar de uma forma mais delicada ao redor, percebendo coisas que antes passariam batidas. Exercitar neles um olhar mais crítico sobre a realidade, depois de terem vivido um trauma, é valioso. 

Eles entenderam o poder que uma foto tem de congelar um milésimo de segundo e reproduzi-lo em infinitos lugares. 

Demos a eles o poder de serem protagonistas de suas histórias, que já foram contadas de diversas formas, algumas não tão boas. Mostrar sua história a partir da própria perspectiva pode ser libertador. Deixa a vida mais leve, a lembrança menos densa, o trauma menos pesado.

Entendi que passamos tantas coisas boas pra eles quando, no dia 5 de novembro, no Memorial de um ano da tragédia de Bento Rodrigues, um aluno olha para o nosso mural de fotos e fala para o colega: “Poxa, você faltou nesse dia, né? Foi o dia mais legal.”

Clara Lemos, bolsista 2016


Particularmente na primeira oficina, os alunos de Bento se mostraram irritados. Alguns questionaram o motivo da existência do projeto, enquanto outros respondiam que era pelo que aconteceu em Bento. “Foi porque nós sobrevivemos!”. “Antes ninguém olhava par a gente”. “As outras crianças do colégio nos tratam diferentes”. “Sinto falta de Bento”. “Tanto faz onde iremos morar”. Questionamentos e afirmações como essas foram proferidos ao decorrer da oficina e principalmente quando nos sentávamos com eles. Alguns se recusaram a realizar as tarefas. Outros perguntavam constantemente sobre o que foi noticiado sobre o subdistrito.

Hariane Alves, bolsista 2016


Os adolescentes são muito dispersos na parte teórica, mas gostam da parte prática. Uma coisa que me chamou atenção foi o pertencimento. Alguns estudantes, ao escrever a legenda proposta como exercício, diziam que eram “estudantes da Escola Municipal de Bento Rodrigues, na escola Dom Luciano”. Eles não se sentiam como parte da escola Dom Luciano, como alunos de lá.

Carolina Carli, bolsista 2016

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