Para secretário de Cultura, as pessoas têm tendência a estragar o que é público

Como parte da investigação sobre os espaços de cultura e lazer em Mariana, o Observatório da Cidade entrevistou o secretário de Cultura, Patrimônio Histórico, Turismo, Esportes e Lazer de Mariana, Efraim Rocha. Na entrevista, o secretário revela que a prefeitura busca organizar melhor os eventos da sede e dos distritos, analisando “excessos” e fazendo restrições. Para ele, muitos eventos são feitos mais por interesse pessoal que coletivo. Um dos problemas dos parques e espaços públicos de Mariana, segundo Efraim, é que as pessoas têm tendência a estragar os bens públicos, que poderiam ser de responsabilidade das comunidades. Confira a entrevista.

Observatório da Cidade – Há um calendário de eventos de natureza cultural e artísticos no âmbito municipal?

Efraim Rocha – Não há um calendário em longo prazo. Existe na cidade uma efervescência muito grande de eventos que nós precisamos organizar melhor. Nós estamos trabalhando melhor isso, essas atuações que são promoções diretas do município, da Secretaria de Cultura, programas como Mariana Viva, Festa da Cidade, Natal de Luz, Mês das Crianças. A Secretaria de Cultura, como organizadora desses calendários, tem levado atividades também para os bairros e distritos e cada um desses bairros tem os seus eventos próprios, que são organizados pela comissão dos bairros, ou pela associação do bairro, ou pela igreja, e esses eventos recebem apoio do Município. Inclusive nós precisamos restringir, não no sentido de tirar oportunidades, mas de organizar melhor. Em julho quase que acontece uma Festa Junina em cada esquina da rua. Organizar isso é difícil, todos querem o apoio da Prefeitura. Lá no bairro São Cristóvão a mesma coisa, o padroeiro de cada bairro tem a sua festa própria e o Município tem apoiado.

OC – Quais são os projetos para a cultura e lazer planejados para este mandato?

ER – Há uma preocupação em levar cultura, em levar oportunidades aos bairros. O bairro Cabanas recebeu já em 2018, durante o Festival Mariana Viva, algumas atrações importantes. No bairro Cabanas nós criamos uma associação cultural recente, que se chama Associação Cultural da Esperança, onde já estão sendo ministradas aulas de música e a formação de uma banda. Nós temos tido essa preocupação com os bairros, realmente é muito importante que a gente insira e que nós não pensemos em Mariana apenas como Centro Histórico. Mariana é toda essa comunidade, é todo esse entorno. Claro que o Centro Histórico é o cartão postal, é o cartão de visita da cidade, mas há uma preocupação em fomentar atividades em outros bairros. Também temos tido essa preocupação com os distritos, sempre que é possível, e sempre que temos alguma programação, nós temos levado aos distritos.

OC – Com relação ao orçamento, existe uma política voltada para projetos nos bairros? Tem uma política dentro da secretaria?

EF – A Prefeitura de Mariana e a Secretaria de Cultura já apoiam as associações devidamente registradas e que se encaixam dentro da legalidade, por exemplo, as bandas de música recebem um valor anual e outros apoios. As escolas de samba, algumas delas são dos bairros ou quase todas estão nos bairros, também recebem esse apoio. Não existe um valor “X” para ser aplicado, não existe um edital, mas existe sim toda a compreensão, toda a atenção com aqueles que solicitam determinado apoio. O que a gente precisa hoje é tirar os excessos, muita coisa que não é necessária, ou que acontece com muita frequência, que não tem um objetivo maior. Nós temos que saber medir o que é o interesse pessoal e o que é de interesse comunitário.

OC – Como a secretaria atua para propiciar um ambiente adequado à promoção dessas atividades?

ER – Ela atua com responsabilidade, com respeito às próprias vocações de cada lugar, de cada evento que se cria. Cada evento tem um objetivo, não só o de proporcionar uma festa. Nós não podemos enxergar os eventos simplesmente como festa. Nós temos que enxergá-los como um momento cultural que a comunidade enxergue algo que pode melhorar. Agora, a cidade, volto a dizer, é uma efervescência talvez de festas. Nós temos que tirar, reduzir, talvez, essa questão da festa e fazer isso se tornar evento. Evento de família, de pessoas que convivem num lugar, que tenham algum outro objetivo maior.

OC – Para além de eventos, percebemos em alguns bairros a necessidade de praças, alguns pontos de encontro e lazer. Isso é um trabalho tanto da Secretaria de Cultura quanto da de Obras. O que a secretaria tem a dizer sobre isso?

ER – É uma necessidade real, nós temos consciência disso. Alguns bairros têm as quadras, mas seria bom se nós tivéssemos as praças. Eu acredito que isso vai melhorar com o tempo e isso implica investimento, implica alto custo, por ser, por exemplo, em um bairro montanhoso. Tudo tem que ser pensado. Acho que a comunidade hoje é ativa e as pessoas trazem opiniões, trazem ideias e nós precisamos encontrar recursos para investir. A cidade precisa ter praças, os bairros precisam ter praças, a gente precisa valorizar isso e essas praças precisam ter vida também. Não adianta fazer uma praça e deixar sem ter vida.

OC – O que você acha que pode ser feito para incentivar a população a ser protagonista dos espaços? Como elas poderiam procurar as secretarias e Prefeitura para solicitar serviços?

ER – Eu acredito que tudo é uma construção, acho que tem que ser através de pequenas ações, com mais frequência no dia a dia, para identificar na comunidade as pessoas que podem ser formadoras de opinião. Acho que é o dia a dia mesmo, e trazer principalmente as crianças. Acho que trazendo as crianças elas puxam os pais, puxam os avós, puxam os tios. Essas crianças quando tiverem nossa idade ou na idade um pouco adulta, vão ser também defensoras disso, pois já fez parte da cultura delas. Acho que o grande problema é não ter tido lá atrás essas ações.

OC – Aos fins de semana, é possível ver famílias andando de bicicleta com os filhos em frente à Rodoviária, soltando pipas na Avenida João Ramos, em frente à Policlínica do Cabanas. Essa apropriação de espaços públicos, na avaliação da Prefeitura, tem a ver com a falta de equipamentos públicos na cidade?

ER – Acredito que não seja só por falta de equipamentos não, por que é natural isso. Soltar pipa você solta com o vento. Em frente à rodoviária porque é um espaço aberto, que não tem fila, que é bom para as pessoas andarem de bicicleta, mas você vê gente andando de bicicleta em muitos outros pontos. Acho que ali é mais uma questão de segurança, talvez seja isso. Talvez os bairros ofereçam mais condições que o centro. Não se pode esquecer uma coisa, Mariana é uma cidade de 1696, então não dá para fazer esse tipo de atividade no centro.

OC – Falamos sobre recurso para obras e entendemos que é um processo, mas e para manter o que já existe? Por exemplo, existem pessoas que trabalham nas quadras, como os funcionários de limpeza, mas não há, por exemplo, guarda ou algum policiamento à noite.

ER – O município vai investir, acho que tem que investir e gerar o emprego, colocar o vigia, mas será que precisaria? A minha percepção é que se eu fiz um bem e ele é comunitário, se o bairro tem uma associação, ela deveria cuidar. Quanto melhor equipado, melhor é o conforto, lazer e tranquilidade para todos, mas as pessoas infelizmente têm tendência para estragar o que é público, então é muito complicado. A manutenção é cara, mas acredito que ela pode ser muito melhorada se houver uma parceria eficaz entre município e pessoas envolvidas.

OC – O senhor falou bastante sobre a educação e das associações de bairros, fazendo esse papel educador. A associação tem uma relação com a secretaria de vir aqui para conversar e fazer solicitação de espaço ou de demandas? Existe esse tipo de encontro?

ER- Algumas associações ainda têm uma cultura de vir aqui quando precisam pedir alguma coisa. As associações no sentido de parcerias são poucas, mas estamos buscando fomentar isso. Há associações muito atuantes e parceiras, mas outras são mais acomodadas e não assumem esse tipo de trabalho, mas também reconhecemos que é um trabalho voluntário, que as pessoas deixam de ter um tempo com a família para se dedicar a isso, e não é tão fácil. É preciso caminhar de forma que as atribuições sejam mais divididas, com mais pessoas, para que a gente possa ter um resultado melhor. São poucas as associações no sentido de parceria, de cuidado.

OC – Quais são as políticas públicas da Prefeitura para os setores de cultura e lazer?

ER – Tudo isso que falei é política pública. Política pública é apoiar o que é bom, é ouvir, construir juntos, valorizar o que se tem, respeitar os locais, as ações de cada lugar. Pra mim, a política pública é o dia a dia, é saber onde melhorar. Se algo não deu certo, vamos fazer mais, vamos fazer melhor, vamos apoiar as associações dos artesanatos ou nossas associações várias formas. Criar mecanismos para as pessoas se inserirem e terem a noção de pertencimento. A política pública, pra mim, não tem uma regra, não tem que ter uma escrita, não é uma lei, não. Pra mim é o bom senso.

 

Entrevista: Helen Aquino e Laura Viana

Texto: Karine Oliveira

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